Praticar esporte melhora vida profissional

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A prática esportiva pode auxiliar não só os aspectos motores e de condicionamento físico, mas também em aspectos psicológicos como o senso de perseverança, o trabalho em equipe, a disciplina, a capacidade de agir em situações de desvantagem e visão estratégica. Tais características podem colaborar enormemente na vida profissional futura dos praticantes de esportes no mundo corporativo.

A troca de vivências e a sociabilidade no meio esportivo é uma forma que caracteriza a constituição do sujeito, que passa a se reconhecer a se constituir por valores daquele ambiente auxiliando a os companheiros, desafiando os próprios limites e superação de obstáculos os desafios dos treinamentos e competições.

De acordo com Feustel (2004), profissionais como engenheiros, educadores, médicos, etc., que conhecem suas respectivas especialidades, quando passam a empreender o seu próprio negócio, ou recebem promoções de cargos à nível superior em empresas / instituições precisam transformar-se em gestores adquirindo novos conhecimentos e posturas que suas especialidades não lhes ensinaram. Neste caso será necessário adquirir novas competências, que podem ser definidas como “um conhecimento, habilidade, ou atitude necessária para desenvolver apropriadamente uma atividade para se alcançar o sucesso na vida profissional”. (BUTLER citado por ZOUAIN e PIMENTA, 2003, p. 12) .

Consideramos cinco características como fundamentais que favorecem os praticantes de esportes, são elas: foco no objetivo (orientação para a tarefa), resiliência, disciplina, coesão e mentalidade empreendedora .

Foco no objetivo

Atletas trabalham fortemente o planejamento estratégico para atingir e superar suas metas. Daniel Goleman diz que “quem tem foco é relativamente imune às turbulências emocionais, tem mais capacidade de se manter calmo durante crises e de se manter no prumo apesar das agitações emocionais da vida “. Podemos considerar que o termo “imune” seja um recursos mais de efeito nesse caso. Os atletas bem preparados, que têm uma definição clara de seus objetivos, tentem a utilizar suas habilidade de lidar com o objetivo e manter-se orientado para a conclusão da tarefa mesmo em situações extremamente adversas. Principalmente se o repertório e os recursos desenvolvidos ao longo da carreira foram bem estabelecidos, treinados e aplicados.

O ato de planejar é decidir antecipadamente o que se pretende fazer, antes da efetivação do trabalho, enxergando de forma clara o futuro, prevendo cada ação necessária, os meios envolvidos com o tempo de execução, para conseguir atingir os objetivos com sucesso (REZENDE, 2000). Isso é preponderante no esporte. No alto rendimento os atletas decidem em conjunto com seus técnicos quais são os momentos em que eles irão realizar suas atividades no máximo, onde terão de aplicar todo o repertório e onde eles poderão treinar, corrigir e reaplicar as novas técnicas com eficiência.

Nesse cenário Frezatti (2009, p. 14) destaca que: “Planejar é quase uma necessidade intrínseca, como é alimentar-se para o ser humano. Não se alimentar significa enfraquecimento e o mesmo ocorre com a organização, caso o planejamento não afete o seu dia a dia dentro do seu horizonte mais de longo prazo”. Seu ponto análogo no esporte é ainda mais delicado, não é incomum que atletas se preparem por mais de uma década apenas para uma competição, como é o caso dos Jogos Olímpicos, pois muitos deles não sabem se terão outra oportunidade, é seu ápice e pode ser único. Já que para o próximo eles poderão não estar mais competindo, podem se lesionar, entre outros fatores. Assim para muitos deles não há margem para erro.

Resiliência

Os esportistas estão acostumados a lidar e suportar pressão em sua rotina e constantemente tem de superar resultados ruins. Retornam os treinamentos por uma nova oportunidade por vir. Os desafios e derrotas são parte da vida de um atleta, bem como a dor, a fadiga. Ao longo da sua preparação aprendem e desenvolvem a capacidade de tomar decisões precisas em situações limítrofes de cansaço, com dores, em momentos decisivo num jogo e/ou competição.

Muitas atitudes, apesar de bem fundamentadas, não irão agradar a todos, então o gestor deve saber conviver com as frequentes barreiras e críticas de seu trabalho e/ou atitudes (VIEIRA, 2007). A resiliência se caracteriza como a capacidade humana de passar por experiências adversas e mesmo assim continuar num processo de desenvolvimento, superando e, até mesmo, se fortalecendo diante das adversidades da vida (GRUNSPUN, 2006.

Em 2000, Trombeta realizou uma revisão na literatura sobre resiliência e identificou que indivíduos resilientes conseguem reconhecer e desenvolver melhor os próprios talentos. Além da autoestima, a prática esportiva também pode contribuir para o aumento da autoconfiança dos participantes, pois eles descobrem que são capazes de fazer algo bem feito.

Disciplina

Os atletas tem consciência de que precisam estar atentos a detalhes. Qualquer falha, por menor que seja, pode colocar o trabalho de anos em risco numa competição.  O esporte impõe o mérito pela disciplina. Nenhum atleta fica forte sem treinos árduos. Ninguém entra em plena forma física sem treinamentos rigorosos. O esporte ensina sobre horários e regras. Chegar atrasado em treinamentos não é uma opção. Dizer ao treinador que você não vai executar alguma tarefa tampouco. No esporte os praticantes aprendem que há uma ritual a seguir, existem regras e comportamentos esperados. Ele terá de executar os movimentos básicos mesmo quando ele já estiver em níveis mais avançados, pois são eles – os movimento básicos -, que permitiram uma execução com excelência de elementos técnicos mais complexos e sofisticados. Eles realizaram milhares de repetições ao longo de suas carreiras. Alguns desses exercícios ainda serão realizados todos os dias.

“A disciplina é uma das qualidades para a construção de uma vida que vale a pena. As pessoas de sucesso mantêm um equilíbrio entre trabalho, família, estudos e até mesmo conseguem tempo para fazer nada”, afirma o consultor de empresas Eugênio Mussak.

Coesão

Atletas de alto rendimento têm vantagens e familiaridade com trabalhos de equipe e estão mais aptos a reconhecerem o melhor profissional do grupo e apoiá-lo em prol do objetivo comum. Michael Jordan (2009, p. 51), em associação à necessidade de trabalho em equipe, declarou que “o talento vence jogos, mas trabalho em equipe e inteligência vencem campeonatos”.

Segundo Zouain e Pimenta (2003) as organizações precisam de gestores que estejam preparados a ajudar seus proprietários e/ou dirigentes e sua equipe principal (times) a formular e alcançar suas metas e objetivos.

A importância da coesão está justamente na sua ligação com a capacidade de construção de alianças no ambiente profissional. É a capacidade de um grupo em agir de forma sinérgica. Da compreensão de que agregando as habilidades dos membros de uma equipe ou grupo é que permitirão a execução da tarefa com eficiência, proporcionando por vezes resultados melhores do que o esperado. Consequentemente, alimentando estados elevados e adequados de autoestima, autoeficácia, autoconfiança, entre outros.

Mentalidade empreendedora

Ao se preparar para a prática esportiva e especialmente para as competições o esportista já adota uma mentalidade empreendedora. Estabelece metas e define o planejamento. O ato de investir no seu corpo em busca do melhor desempenho é tudo aquilo que o empreendedor ‘da vida real’ faz no seu dia a dia de trabalho. Mendes (2011) afirma que o empreendedorismo é um tipo de mentalidade e um conjunto de aptidões que os indivíduos utilizam para criarem valor para si próprios e para a sociedade. Estudando a natureza empreendedora, Hisrich, Peters e Shepherd (2014) descrevem o empreendedorismo como o processo de criar algo diferente, novo, com valor, dedicando esforços e tempo necessários, assumindo riscos financeiros, sociais e psicológicos, e recebendo recompensas de satisfação pessoal e econômica como resultado de sua ação.

Um empreendedor comprometido com seus resultados acredita e apoia seu time e aposta em riscos calculados. Tal como no esporte os obstáculos diários quase sempre podem ser ultrapassados com um bom planejamento e preparo técnico. Os valores que são aprendidos no esporte são transferidos para a empresa. Lidar com as competências já desenvolvidas no mundo dos esportes aumenta significativamente a chance do sucesso também na vida corporativa.

Ademais, os atletas estão sempre tentando bater seu recorde pessoal. Eles constantemente buscam fazer o seu melhor. Eles não se contentam. Essas habilidades transferíveis de treinamento, trabalhando duro e luta para chegar ao topo do jogo são altamente desejáveis no mundo dos negócios. Essa busca constante por melhora e por atingir os objetivos não afeta apenas o indivíduo, mas é contagioso no local de trabalho.

Os recrutadores podem ainda não estar acostumados a discutir esportes em entrevistas de emprego, mas os candidatos mais experientes podem ter a chance de mudar isso. De fato, muitas das habilidades e traços de personalidade desejáveis no mundo corporativo e na qual se investem altas somas na busca e na formação de funcionários com características direcionadas para a alta performance, já foram desenvolvidas, testadas, aplicadas e avaliadas nos atletas.

Referências

Rezende, J.R. Organização e administração no esporte. Rio de Janeiro, Sprint, 2000.

Feustel, C.R. Gestão de negócios em escolas de natação. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Centro Tecnológico, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2004.

Zouain, D. M.; Pimenta, R. C. Perfil dos profissionais de administração esportiva no Brasil. In: World Sport Congress, Barcelona, 2003 Espanha.

Vieira, T.P., Stucchi, S. Relações preliminares entre a gestão esportiva e o profissional de educação física. Conexões: Revista da Faculdade de Educação Física da UNICAMP, Campinas, v. 5, n. 2, p. 113-128, jul./dez. 2007.

Zouain, D. M., Pimenta, R. C. Perfil dos profissionais de administração esportiva no Brasil. In: World Sport Congress, Barcelona, 2003 Espanha.

Goleman , D. Foco: o motor oculto da excelência. Ad. Temas e Debates, Lisboa , 2014 .

Frezatti, F. Orçamento empresarial: planejamento e controle gerencial. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

Grunspun, H. Criando filhos vitoriosos: quando e como promover a resiliência. São Paulo: Atheneu, 2006

Trombeta, L. H. A. P. (2000) Resiliência em adolescentes: estudo preliminar de variáveis e medida. Dissertação de mestrado em Psicologia Escolar Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Jordan, M. (2009). Nunca deixe de tentar. Rio de Janeiro: Sextante.

Mendes, M. T. T. (2011). Educação Empreendedora: uma visão holística do empreendedorismo na educação. 2011. 288p. Dissertação de Mestrado em Ciências da Educação – Universidade Católica Portuguesa – Faculdade de Educação e Psicologia. Lisboa.

Hisrich, R. D., Peters, M. P., & Shepherd, D. A. (2014). Empreendedorismo. 9. ed. Porto Alegre: AMGH.

Autores

Letícia Capuruço – Psicóloga e especializanda em Psicologia do Esporte da Universidade Estácio

Rodolfo Codo Rasmusen – Psicólogo e especializando em Psicologia do Esporte pela Universidade Estácio

Dr. Flávio Rebustini – Coordenador da Pós-Graduação da Universidade Estácio e membro do LEPESPE

Artigo extraído do site Educação Física